Fogem a pé…
Às centenas, milhares e milhões
A um passo agitado, eles fogem…
Como mulas carregadas levam o que podem
Roupa, alimentos e alguns bens
Enveredam numa jornada sem igual
Às centenas, milhares e milhões
Deixam para trás as suas casas
Os destroços de uma vida passada,
Reduzida a pó e cinzas; cinzas e pó,
São sinais de uma tempestade
Enegrecida pelas nuvens da maldade
Seguem viagem sem orientação
Feridos por fora e desfeitos no interior
Despedem-se da terra que os viu nascer,
Da pátria onde viram os seus morrer
Com sede e fome; fome e sede,
Eles fogem a pé…
Loucos há os que tentam o mar
Desafiam os deuses antigos e lá vão
Mesmo sabendo que podem naufragar
Preferem ser alimento para peixes
Do que servir de bala para canhão
Às centenas, milhares e milhões
A pé ou pelo mar, eles fogem
Consigo levam o pouco que podem
Rezam a Alá, a Cristo ou ao nada
Que importa o culto da oração?
Por credos diversos a humanidade se perdeu
Na hipocrisia “do meu é melhor que o teu”
Covardes! Cambada de seres alarvados
Indignos do que a natureza ofereceu
Destruidores da beleza que a diferença nos deu
Somos uma espécie medíocre,
Sim, nós os pretensos seres humanos!
Desde os tempos bíblicos de Abel e Caim,
Da escravatura no Antigo Egito,
Das perseguições aos cristãos,
Das cruzadas de massacre no Islão,
Das hediondas inquisições aos judeus,
Por não aceitar os credos diverso a humanidade se perdeu
E hoje continuam a fugir…
A pé, por entre desertos e perigos
Pelo mar, com o risco de se afogar
Fogem…
Às centenas, milhares e milhões
Com fome e sede; sede e fome
Só querem um lugar seguro onde possam ficar
Em vez disso, recebem-nos com um muro,
De betão e arame farpado,
De desconfiança e intolerância,
Recebem-nos com muros de arrogância
Eles fogem…
Trazem os ventos da guerra
O desespero dos sem terra
O chorar dos flamigerados
Às centenas, milhares e milhões
Porque não lhes abrimos nossos corações?
Fogem a pé e pelo mar,
Pobres coitados,
Pobres dos refugiados…
Mais pobres ainda aqueles que vivem na amargura.