Metamorfose

Metamorfose conspícua de uma larva
Encarcerada num casulo de redenção
Desponta como uma borboleta
Bate as asas e voa livremente

Sob os olhares de admiração
Ignora-se o seu passado ignóbil
Despojado de quaisquer pasmos
Submergido em antros de escuridão

Larva que deixou de o ser
Borboleta alvo de colecionadores virou
Metamorfose audaz no exterior
Ironia do destino, larva no interior continuou.

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Acordes da alma

As cordas da guitarra tocam
acordes de fogo
labaredas do coração

A música faz-se ouvir na rua
em casa
em qualquer lugar

Mas não existe uma casa,
uma pátria para exacerbar

Com os dedilhar das notas
percorre-se o instrumento
onde somente importa ficar

A minha palavra é livre

Somos parte de um mundo díspar
Um lugar em que ardem os humanos
E vigoram os fantoches maneáveis
Marionetas de forças superiores
Com descrença pela plateia

Nos bastidores erguem-se algumas vozes
Os invisíveis que cantam no meio do caos
Cantam palavras de emancipação
Cantam em silêncio sem serem ouvidos
Não foram designados para protagonistas
Mas são eles que dão brilho ao enredo

Entre a escuridão os anónimos ganham força
Podem ser presos, torturados e humilhados
Mas as suas palavras ainda não pagam imposto
Por isso cantam e atuam pela liberdade


Uma homenagem à Palestina ocupada, bem como a todos aqueles que sofrem as agruras da opressão!

O erguer dos Estados

Fronteiras traçadas com sangue
Cercos, muros e barreiras,
Arame farpado. Feridas profundas.
Gritos inauditos que ecoam…

Perdidos na tradução do indizível
Faltam verbos, sinónimos e adjetivos
Almas corrompidas pelo silêncio
Vísceras rasgadas por réstias de luz

Embarcados no submundo de Hades
Ensaiam a cegueira da paralisação
Não se mexem. Não observam. Não escutam.
Os estados erguem-se sob sepulturas!

Sem título

Quer-se o prazer da dor

Agora somos semicorpos à janela
No crepúsculo da casa silenciada,
A luz da lua rompe a inocência
De quem só nela vive

Há um rosto na sombra
Espalma som e luz, alumia meteoritos
Rasga a utopia
Grita nas entranhas

Descobre-se na tela o contorno das figuras
Um corpo martelado pela vida.
De repúdio e ofensa
Com desejo de envolver,
Devorar o outro inteiro

Observa-se a linha que parte o mundo
Em dois estados.
Encontrados em meios divergentes
Nítidos de alegria e amor terreno

Apoia-se na crença
De que a utopia só acaba 
Quando se continua 
A caminhar, observar, sentir.

Um poema de Filipa Santos Sousa (autora do blogue “Crónicas de Utopia”), Catarina Amaro Oliveira, Nelma Moreira, Maria Manuel Baptista e Cecília Monção.

Esta composição poética em grupo surge como resultado final do Workshop de Escrita Criativa com Jorge Melícias, promovido pelo District, no Porto.

O prazer da dor

Um corpo martelado pela vida
Falta o lume que excita o amor
Procura o toque selvático que não finda
Deseja o prazer da dor

Encontrados em meios divergentes,
Embriagados, 
Ressacados pela essência alheia
Os corpos absorvem-se

Sincronizados em jeitos infrenes
Gritam em silêncio:
É certo adorar o prazer
E o prazer pode ser dor.

Um livro pela tua ausência no Natal

              Rosa era uma jovem de vinte e tal anos, com uma enorme paixão pelo mundo da escrita. Natural de uma pequena aldeia, nunca sentiu que pertencesse realmente àquele lugar, como se a sua casa estivesse num outro sítio, mas não ali. Custava-lhe a ideia de partir e de deixar a família – em particular a sua avó, com quem partilhava o mesmo nome e vários segredos. Por esse motivo, Rosa foi-se mantendo por perto, ano após ano, mas o sentimento de frustração era cada vez maior. Estava cansada de tudo e de mais alguma coisa. Estava saturada da rotina, do trabalho e até das pessoas.

             – Preciso de mais! Não posso continuar neste impasse. Definitivamente, eu mereço mais e melhor. Vou pegar nas minhas roupas, não preciso de muitas, nos meus livros… e vou partir! – pensou Rosa, numa espécie de autoconvencimento de que esta era a decisão certa a tomar.

            Movida por uma força, ou epifania súbita de resolução, Rosa pegou na sua mochila, com as roupas e os livros amontoados e partiu na véspera de Natal. Simplesmente partiu, sem sequer se despedir de ninguém, nem da sua querida avó. Não iria permitir que a sucessão de questões sem fim a demovesse do seu destino sem ponto de partida. Apenas queria encontrar o seu horizonte ou qualquer sentido para a sua existência «excessivamente aborrecida» –, tal como costumava autodescrever-se aos amigos próximos.

            Rosa partiu na calada da noite, com o maior dos cuidados para não acordar ninguém lá em casa. De manhã, entre a correria típica a que os rituais natalícios obrigam, os pais estranharam a sua ausência; mas nada que impedisse a continuação dos preparativos. Era preciso preparar o bacalhau e as batatas, os mil doces para encher a mesa, escolher o melhor dos vinhos para que em conjunto a família se pudesse emborrachar um pouco e partilhar umas quantas estórias. Enfim, não havia tempo para saber de Rosa, que tão pouco era presença assídua no frenesim de limpezas e embrulhos que antecedia a noite de Consoada. Por fim, o pai de Rosa encontrou uma carta:

            – «Meus queridos familiares, decidi partir não sei muito bem para onde. Sei que provavelmente vão ficar ainda mais irritados por tê-lo feito numa véspera de Natal, mas a verdade é que, para mim, há muito que esta festividade deixou de ter o mesmo significado. Parece que todos os anos é sempre a mesma coisa: a família junta-se; a mesa está guarnecida com comida em excesso; abre-se uma garrafa de Porto e, talvez depois outra; as crianças aguardam a troca de prendas, contudo já não acreditam no Pai Natal. Não me interpretem mal, adoro a partilha de estórias e os sorrisos de todos após o suceder de desembrulhos. No entanto, parece que todos os anos é sempre a mesma coisa, com a agravante das estórias serem cada vez menos. Estamos todos entretidos e distraídos a navegar pela Internet. Aproveitamos os momentos a seguir ao jantar para tirar umas quantas selfies, que devem retratar o quanto supostamente felizes estamos; enfim, há que atualizar o feed do Facebook e do Instagram. Pelo meio ainda gravamos um ou outro vídeo, daqueles que desaparecem em 24 horas, desejamos felicidades aos conhecidos, amigos e familiares que nunca vemos… E tem sido isto. Portanto, achei que não teria mal eu partir, precisamente, na véspera de Natal. Afinal, esteja onde estiver podemos sempre fazer uma conferência pelo Skype, ou pelo Whatsapp. No fundo é quase como se estivesse aí ao vosso lado, não é? Não se preocupem comigo. Prometo que vou ficar bem. Prometo também que vou fazer uns quantos posts para que possamos continuar a interagir. Não é nada demais. Vou voltar para um próximo Natal, o qual em teoria deverá ser como todos os outros. Com amor, Rosa!»

            António, assim se chama o pai de Rosa, leu esta carta vezes sem conta, ficou atordoado e incrédulo perante as palavras da sua querida menina. Porém, sempre soube que a sua filha não era como as outras jovens da aldeia. Desde cedo, Rosa mostrou sinais de ser diferente: – Um espírito livre, costumava dizer o seu progenitor. Bem, parece que desta vez foi mesmo a sério e a menina, que havia muito tempo já se tinha feito mulher, decidiu ganhar asas e voar. Custou ler-lhe a carta perante toda a família, todos mostraram alguma surpresa, mas nada que impedisse o tradicional jantar de véspera de Natal. Parece que já suspeitavam que algum dia Rosa fizesse uma proeza destas, pelo menos a avó estava mais do que certa. Portanto, comeram, beberam vinho e abriram os presentes. No entanto, por mais que se quisessem mostrar indiferentes, e contrariamente ao habitual, ninguém quis tirar qualquer selfie de Natal.

            Rosa, por sua vez, teve a sorte de arranjar boleia de um jovem camionista, também nos seus vinte e tal anos e fisicamente atraente, e juntaram-se para uma jornada que deveria terminar na bela capital espanhola, Madrid; o seu objetivo era ficar aí uns tempos e inspirar-se para uns quantos contos. Porém, e como se costuma dizer lá na aldeia de Rosa: – Ninguém é de ferro! De tal modo, que a aspirante a escritora perdeu-se de amores; achava mesmo que tinha encontrado a sua espécie de príncipe encantado. Com o seu novo namorado partiu em mil aventuras, viajou um pouco por toda a Europa. Depois cansou-se disso também, afinal queria era estar sozinha e partiu em mais viagens. Reuniu umas quantas potenciais narrativas para o livro que tanto almejava escrever. Mas estava tão ocupada que acabava por esquecer-se de tirar notas.

            Entre as suas deambulações, amores e desamores, Rosa esqueceu-se não só do seu sonho de escrever, mas, por vezes, também de contactar com a sua própria família. É certo que lhes havia prometido interações regulares, mesmo por via das redes sociais, apesar de querer alguma distância desses meios; mas nem por aí ou por telefone, quase nunca ligava. Estava tão concentrada em si que acabava por esquecer-se até da sua querida avó, com quem partilhava uma relação única, difícil de definir em meras palavras. Mesmo assim, nunca parou para escrever-lhe como seria suposto. Dava por garantido o reencontro pelo Natal. Rosa começava a ficar também cansada da sua vida nómada. Então, o seu novo plano era regressar para as celebrações natalícias e fazer uma surpresa a todos. Ansiava, particularmente, pelo momento em que iria reencontrar a sua avó. Certo dia, e mesmo no aproximar do Natal, Rosa recebeu uma chamada do seu pai com a pior notícia de todas: a morte da sua mais que tudo.

            Apesar da tristeza geral, Rosa foi recebida com beijinhos e abraços. Todos estavam aliviados pelo seu regresso. Voltou a adornar-se a mesa de Natal, com a mesma comida, doces e vinhos, mas com menos um lugar. Rosa sentiu um aperto tão grande no peito, que não conseguiu comer nada. Queria ter-lhe ligado. Queria ter-lhe dado aquela prenda que a avó tanto pediu, mas que nunca chegou a oferecer. Naquele momento pediu desculpa, saiu da mesa e fechou-se no seu quarto, onde começou a escrever desenfreadamente:

            – Pelo teu forte, sentido e singelo abraço –, assim começava a estória.

Em pouco tempo, Rosa escreveu inúmeros capítulos com todas as palavras que ficaram por dizer. “Um livro pela tua ausência no Natal”, assim intitulou a única homenagem que lhe poderia agora fazer!