Prelúdio de nada (Parte II)

O tempo passa velozmente. Cedo nasce o sol e depressa se levanta a lua. Sucedem-se os dias, meses e anos. Sucedem-se as estações. Uma sucessão de sucessões sem fim, mas nem damos pelo tempo passar. Observamos as divagações nas cores das pinturas que moldam as paisagens. Mostramos mais, ou menos pele, consoante os graus que se fazem sentir. O ano começa e termina como um sopro de vento. Um vento que vagueia de norte a sul. Sopra o vento e torna a soprar, tanto que nem damos pelo tempo passar.

Celebramos todas as festividades: as nossas, as dos outros e aquelas que fingimos acreditar. Damos as boas-vindas ao Carnaval, à Páscoa e deliramos com o Natal. Perdoem-me, deliram, estas efemeridades perderam o valor que tinham para mim. Mas retomando, todos estes expoentes sazonais nada mais são do que representações concretas e visíveis do tempo a passar. O tempo que passa tão velozmente, que nem damos pelo tempo passar.

A cegueira que declina a natural evolução dos diferentes estados de Cronos conhecerá certo dia um vislumbre. Não de regozijo ou exaltação, mas de angústia e exasperação. Um dia vamos todos acordar deste entorpecimento que rejeita o tempo, contudo acordaremos sozinhos. Procuraremos os rostos do amor, os rostos do carinho, os rostos da amizade, os rostos dos vizinhos e os rostos dos conhecidos que não cumprimentávamos. Apenas teremos os rostos dos desamores, os rostos da tristeza, os rostos da desilusão, os rostos das ruínas e os rostos dos desconhecidos que queremos agora cumprimentar.

O tempo passa velozmente. Sopra como o vento, mas quando sopra não volta para trás. Não há um regresso ao ponto de partida de outrora. Não há um rebobinar na cassete para dizer tudo o que ficou perdido em meias palavras, em cartas que não chegaram; em chamadas que ficaram por fazer. O tempo passa e tudo leva. O real deixará de o ser. Transformar-se-á em poeira de saudade. Contemplemos o tempo enquanto resta tempo. Choro neste prelúdio de nada, em cima desta poeira de saudade, que antes foi certeza de tudo.

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Prelúdio de nada

Dizem que parar é morrer. Não quero ser mais uma de tantas carpideiras. Nunca tive qualquer talento digno de menção para a representação. As minhas lágrimas quando caem são tudo menos de autocomiseração. Rejeito as lágrimas do sofrer fingido. Repudio sagazmente os mortos-vivos: que cambaleiam em vez de caminhar; que invejam em vez de viver; que choram sem sentir.

Refuto seguir os rebanhos entorpecidos. Não quero ser mais uma de tantas ovelhas. Se for, pelo menos que seja a negra, aquela que todos olham de lado. Prefiro estar envolta pela minha certeza e solidão, em vez de estar ladeada por uma ilusória confraternização. Rejeito os vossos saberes e dizeres de mortos-vivos. Repudio as vossas considerações.

Dizem que parar é morrer. Mas não quero ser mais uma de tantas carpideiras. Sempre que me apetecer chorarei. Não as lágrimas de sofrer fingido. Porém, as lágrimas que nascem da alma. Por isso, vou parar… e envolver-me neste (im)perfeito prelúdio de nada! 

A Santa Uxía de Ribeira

sou uma alma sem casa,
daquelas que gosta de
vaguear.

sou uma alma sem casa,
com predileção
pelo mar.

procuro águas serenas,
desprovidas de profundidades
mas, repletas de possibilidades

procuro um mar,
um mar sem fim, de ondas baixas
e que me faça…
que me faça sonhar.

A intolerância

A intolerância é como os frutos
Cresce e prolifera nas árvores
Alimenta xenófobos e homófobos,
Ou seja, vários tipos de racistas,
Daqueles que votam em extremistas

A intolerância é como uma praga
Devastadora como as do Antigo Egito
Faraós e senhores nobres tombaram
Dos mais fracos fizeram escravos,
Mas os gafanhotos, rãs e escuridão preconizaram:
– O império cairá de aflito!

Podemos pregá-las outra vez?

Só não apetece ser mais

Não sou mais porque não me apetece
Quando quiser mudar os meus jeitos,
Deixar o trabalho, a casa e esta vida
Eu vou…

Não temo a noite, ou a solidão
Nada receio senão a morte

Quando quiser partir: eu vou!
Juro que vou,
                  porque
Eu sou, juro que sou:
                                      a mais forte!

Aos de maus instintos

Não olhes para mim
Não atentes no que faço
Não fales sobre mim
Não me vires a cara
Não finjas que não me conheces
Não lances faíscas de maldizer

Mas…
           Agora a sério…

Olha para mim à vontade
Atenta naquilo que faço
Fala em português, galego ou castelhano
Mas fala sobre mim com verdade
E força! Vira-me lá a cara
Finge, e torna a fingir, que desconheces
E lança as tuas chispas de tom insano

Podem fazer o que vos apetecer
                  Não quero nem saber.

Sou eu quem cuida do meu ser
                            e
Se és um desses, de maus instintos, vai-te foder!

O absoluto

Encontro-te à boca da noite
Sob o luar da despedida
No penhasco à beira-mar
Que foi ponto de partida

O absoluto: este marulhar
Insónias, ensaios e sonetos
A verdade do sonho desaparece

Trocamos olhares e impressões
Ante o gélido lunar das distorções

O absoluto?
Mero sono devoluto.
– Pesaroso marulhar de nostalgia.