Um livro pela tua ausência no Natal

              Rosa era uma jovem de vinte e tal anos, com uma enorme paixão pelo mundo da escrita. Natural de uma pequena aldeia, nunca sentiu que pertencesse realmente àquele lugar, como se a sua casa estivesse num outro sítio, mas não ali. Custava-lhe a ideia de partir e de deixar a família – em particular a sua avó, com quem partilhava o mesmo nome e vários segredos. Por esse motivo, Rosa foi-se mantendo por perto, ano após ano, mas o sentimento de frustração era cada vez maior. Estava cansada de tudo e de mais alguma coisa. Estava saturada da rotina, do trabalho e até das pessoas.

             – Preciso de mais! Não posso continuar neste impasse. Definitivamente, eu mereço mais e melhor. Vou pegar nas minhas roupas, não preciso de muitas, nos meus livros… e vou partir! – pensou Rosa, numa espécie de autoconvencimento de que esta era a decisão certa a tomar.

            Movida por uma força, ou epifania súbita de resolução, Rosa pegou na sua mochila, com as roupas e os livros amontoados e partiu na véspera de Natal. Simplesmente partiu, sem sequer se despedir de ninguém, nem da sua querida avó. Não iria permitir que a sucessão de questões sem fim a demovesse do seu destino sem ponto de partida. Apenas queria encontrar o seu horizonte ou qualquer sentido para a sua existência «excessivamente aborrecida» –, tal como costumava autodescrever-se aos amigos próximos.

            Rosa partiu na calada da noite, com o maior dos cuidados para não acordar ninguém lá em casa. De manhã, entre a correria típica a que os rituais natalícios obrigam, os pais estranharam a sua ausência; mas nada que impedisse a continuação dos preparativos. Era preciso preparar o bacalhau e as batatas, os mil doces para encher a mesa, escolher o melhor dos vinhos para que em conjunto a família se pudesse emborrachar um pouco e partilhar umas quantas estórias. Enfim, não havia tempo para saber de Rosa, que tão pouco era presença assídua no frenesim de limpezas e embrulhos que antecedia a noite de Consoada. Por fim, o pai de Rosa encontrou uma carta:

            – «Meus queridos familiares, decidi partir não sei muito bem para onde. Sei que provavelmente vão ficar ainda mais irritados por tê-lo feito numa véspera de Natal, mas a verdade é que, para mim, há muito que esta festividade deixou de ter o mesmo significado. Parece que todos os anos é sempre a mesma coisa: a família junta-se; a mesa está guarnecida com comida em excesso; abre-se uma garrafa de Porto e, talvez depois outra; as crianças aguardam a troca de prendas, contudo já não acreditam no Pai Natal. Não me interpretem mal, adoro a partilha de estórias e os sorrisos de todos após o suceder de desembrulhos. No entanto, parece que todos os anos é sempre a mesma coisa, com a agravante das estórias serem cada vez menos. Estamos todos entretidos e distraídos a navegar pela Internet. Aproveitamos os momentos a seguir ao jantar para tirar umas quantas selfies, que devem retratar o quanto supostamente felizes estamos; enfim, há que atualizar o feed do Facebook e do Instagram. Pelo meio ainda gravamos um ou outro vídeo, daqueles que desaparecem em 24 horas, desejamos felicidades aos conhecidos, amigos e familiares que nunca vemos… E tem sido isto. Portanto, achei que não teria mal eu partir, precisamente, na véspera de Natal. Afinal, esteja onde estiver podemos sempre fazer uma conferência pelo Skype, ou pelo Whatsapp. No fundo é quase como se estivesse aí ao vosso lado, não é? Não se preocupem comigo. Prometo que vou ficar bem. Prometo também que vou fazer uns quantos posts para que possamos continuar a interagir. Não é nada demais. Vou voltar para um próximo Natal, o qual em teoria deverá ser como todos os outros. Com amor, Rosa!»

            António, assim se chama o pai de Rosa, leu esta carta vezes sem conta, ficou atordoado e incrédulo perante as palavras da sua querida menina. Porém, sempre soube que a sua filha não era como as outras jovens da aldeia. Desde cedo, Rosa mostrou sinais de ser diferente: – Um espírito livre, costumava dizer o seu progenitor. Bem, parece que desta vez foi mesmo a sério e a menina, que havia muito tempo já se tinha feito mulher, decidiu ganhar asas e voar. Custou ler-lhe a carta perante toda a família, todos mostraram alguma surpresa, mas nada que impedisse o tradicional jantar de véspera de Natal. Parece que já suspeitavam que algum dia Rosa fizesse uma proeza destas, pelo menos a avó estava mais do que certa. Portanto, comeram, beberam vinho e abriram os presentes. No entanto, por mais que se quisessem mostrar indiferentes, e contrariamente ao habitual, ninguém quis tirar qualquer selfie de Natal.

            Rosa, por sua vez, teve a sorte de arranjar boleia de um jovem camionista, também nos seus vinte e tal anos e fisicamente atraente, e juntaram-se para uma jornada que deveria terminar na bela capital espanhola, Madrid; o seu objetivo era ficar aí uns tempos e inspirar-se para uns quantos contos. Porém, e como se costuma dizer lá na aldeia de Rosa: – Ninguém é de ferro! De tal modo, que a aspirante a escritora perdeu-se de amores; achava mesmo que tinha encontrado a sua espécie de príncipe encantado. Com o seu novo namorado partiu em mil aventuras, viajou um pouco por toda a Europa. Depois cansou-se disso também, afinal queria era estar sozinha e partiu em mais viagens. Reuniu umas quantas potenciais narrativas para o livro que tanto almejava escrever. Mas estava tão ocupada que acabava por esquecer-se de tirar notas.

            Entre as suas deambulações, amores e desamores, Rosa esqueceu-se não só do seu sonho de escrever, mas, por vezes, também de contactar com a sua própria família. É certo que lhes havia prometido interações regulares, mesmo por via das redes sociais, apesar de querer alguma distância desses meios; mas nem por aí ou por telefone, quase nunca ligava. Estava tão concentrada em si que acabava por esquecer-se até da sua querida avó, com quem partilhava uma relação única, difícil de definir em meras palavras. Mesmo assim, nunca parou para escrever-lhe como seria suposto. Dava por garantido o reencontro pelo Natal. Rosa começava a ficar também cansada da sua vida nómada. Então, o seu novo plano era regressar para as celebrações natalícias e fazer uma surpresa a todos. Ansiava, particularmente, pelo momento em que iria reencontrar a sua avó. Certo dia, e mesmo no aproximar do Natal, Rosa recebeu uma chamada do seu pai com a pior notícia de todas: a morte da sua mais que tudo.

            Apesar da tristeza geral, Rosa foi recebida com beijinhos e abraços. Todos estavam aliviados pelo seu regresso. Voltou a adornar-se a mesa de Natal, com a mesma comida, doces e vinhos, mas com menos um lugar. Rosa sentiu um aperto tão grande no peito, que não conseguiu comer nada. Queria ter-lhe ligado. Queria ter-lhe dado aquela prenda que a avó tanto pediu, mas que nunca chegou a oferecer. Naquele momento pediu desculpa, saiu da mesa e fechou-se no seu quarto, onde começou a escrever desenfreadamente:

            – Pelo teu forte, sentido e singelo abraço –, assim começava a estória.

Em pouco tempo, Rosa escreveu inúmeros capítulos com todas as palavras que ficaram por dizer. “Um livro pela tua ausência no Natal”, assim intitulou a única homenagem que lhe poderia agora fazer!

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Singela paródia do aceitável

Um corpo marcado por profundas cicatrizes
Dos pés à cabeça, não faltam vestígios
Num rosto triste e tocado por meretrizes
-Poderá alguém querê-lo em seus delírios?

Dois corpos com negras profundas
Da cabeça aos pés, não faltam marcas
Em rostos consternados e de vagabundas
-Poderá alguém desejar estas vacas?

Três corpos, unidos num só
Faltam negras e muitas cicatrizes
Em rostos simétricos, sem despertar dó
-Poderá alguém impedi-los de serem felizes?

Um é estranho; dois também; e três é demais
Mas impelimos antes pelos últimos, não?
Pelo menos parecem esteticamente aceitáveis;
embora a ‘moral’ nos dite que são deploráveis!

II

Multiplicam-se as receitas dos remédios e bebidas para curar maleitas. Em porções desproporcionadas da realidade servem-me as soluções líquidas para as minhas dores. Perdoem-me os crentes, mas desconfio da veracidade de esoterismos. Desculpem-me os filósofos, mas as vossas teorias não são as minhas. Que não me batam os psicólogos e psiquiatras, mas os vossos comprimidos deviam ser proibidos. Lamento informar, mas os vossos antidepressivos apenas remedeiam depressões. Quais estupefacientes inventam alegria onde só há tristeza. E chamam a isso curar? Podem receitar às dezenas e centenas, refutarei cada caixa dessa podridão. Não dispenso nem mais um centavo nessa máscara que me tentam imputar. Prefiro a dureza palpável da dor, em detrimento dos sorrisos abstratos das vossas drogas. Quero chorar sempre que precisar. Quero gritar sempre que precisar. Chega de fingir que não é a dor aquilo que deveras sinto. Chega de fingir que não é vazio aquilo que agora trago dentro de mim. Não devemos ter medo de sofrer. Porque o sofrimento é real. Se existe e está em mim, em nós, não o devemos negar. Porque não há cura que aguente falácias de um contentamento desvirtuado.

Durante algum tempo enganei-me. Mas depois de dormir acordada percebi que não era esse o rumo a tomar. Percebi que não vale a pena pensar muito sobre roteiros. Podemos conceber o mais perfeito itinerário para a nossa vida, contudo temos que estar preparados para os desvios. Mesmo com mapas e os mais afamados GPS podemos desembocar em abismos. Num ápice tudo pode mudar ao ponto de nada voltar a ser o mesmo. Com inúmeras reflexões sobre o absurdo que é a vida, perco-me entre pensamentos soltos e insónias sem fim. Desde que te fostes que parte de mim partiu. Fui forçada a desprender-me da amarra que me ligava a um porto seguro. Tive que embarcar e navegar num mar de tempestade, numa viagem tão solitária quanto a solidão o sabe ser. Nas margens soltam-se vozes amigas que entoam frases de avisos. Guardo o calor das suas palavras comigo, mas tenho que partir. Não sei muito bem para onde, mas tenho que partir. Tenho que me redescobrir sem ti. Livre de aditivos receitados, contudo doente pela sede de escrever. Tenho mesmo que me redescobrir. Custa admitir, mas tenho que aprender a viver A Vida Depois de Ti!

(Continuação do texto “I”)

Prelúdio de nada (Parte II)

O tempo passa velozmente. Cedo nasce o sol e depressa se levanta a lua. Sucedem-se os dias, meses e anos. Sucedem-se as estações. Uma sucessão de sucessões sem fim, mas nem damos pelo tempo passar. Observamos as divagações nas cores das pinturas que moldam as paisagens. Mostramos mais, ou menos pele, consoante os graus que se fazem sentir. O ano começa e termina como um sopro de vento. Um vento que vagueia de norte a sul. Sopra o vento e torna a soprar, tanto que nem damos pelo tempo passar.

Celebramos todas as festividades: as nossas, as dos outros e aquelas que fingimos acreditar. Damos as boas-vindas ao Carnaval, à Páscoa e deliramos com o Natal. Perdoem-me, deliram, estas efemeridades perderam o valor que tinham para mim. Mas retomando, todos estes expoentes sazonais nada mais são do que representações concretas e visíveis do tempo a passar. O tempo que passa tão velozmente, que nem damos pelo tempo passar.

A cegueira que declina a natural evolução dos diferentes estados de Cronos conhecerá certo dia um vislumbre. Não de regozijo ou exaltação, mas de angústia e exasperação. Um dia vamos todos acordar deste entorpecimento que rejeita o tempo, contudo acordaremos sozinhos. Procuraremos os rostos do amor, os rostos do carinho, os rostos da amizade, os rostos dos vizinhos e os rostos dos conhecidos que não cumprimentávamos. Apenas teremos os rostos dos desamores, os rostos da tristeza, os rostos da desilusão, os rostos das ruínas e os rostos dos desconhecidos que queremos agora cumprimentar.

O tempo passa velozmente. Sopra como o vento, mas quando sopra não volta para trás. Não há um regresso ao ponto de partida de outrora. Não há um rebobinar na cassete para dizer tudo o que ficou perdido em meias palavras, em cartas que não chegaram; em chamadas que ficaram por fazer. O tempo passa e tudo leva. O real deixará de o ser. Transformar-se-á em poeira de saudade. Contemplemos o tempo enquanto resta tempo. Choro neste prelúdio de nada, em cima desta poeira de saudade, que antes foi certeza de tudo.

Prelúdio de nada

Dizem que parar é morrer. Não quero ser mais uma de tantas carpideiras. Nunca tive qualquer talento digno de menção para a representação. As minhas lágrimas quando caem são tudo menos de autocomiseração. Rejeito as lágrimas do sofrer fingido. Repudio sagazmente os mortos-vivos: que cambaleiam em vez de caminhar; que invejam em vez de viver; que choram sem sentir.

Refuto seguir os rebanhos entorpecidos. Não quero ser mais uma de tantas ovelhas. Se for, pelo menos que seja a negra, aquela que todos olham de lado. Prefiro estar envolta pela minha certeza e solidão, em vez de estar ladeada por uma ilusória confraternização. Rejeito os vossos saberes e dizeres de mortos-vivos. Repudio as vossas considerações.

Dizem que parar é morrer. Mas não quero ser mais uma de tantas carpideiras. Sempre que me apetecer chorarei. Não as lágrimas de sofrer fingido. Porém, as lágrimas que nascem da alma. Por isso, vou parar… e envolver-me neste (im)perfeito prelúdio de nada! 

A Santa Uxía de Ribeira

sou uma alma sem casa,
daquelas que gosta de
vaguear.

sou uma alma sem casa,
com predileção
pelo mar.

procuro águas serenas,
desprovidas de profundidades
mas, repletas de possibilidades

procuro um mar,
um mar sem fim, de ondas baixas
e que me faça…
que me faça sonhar.

A intolerância

A intolerância é como os frutos
Cresce e prolifera nas árvores
Alimenta xenófobos e homófobos,
Ou seja, vários tipos de racistas,
Daqueles que votam em extremistas

A intolerância é como uma praga
Devastadora como as do Antigo Egito
Faraós e senhores nobres tombaram
Dos mais fracos fizeram escravos,
Mas os gafanhotos, rãs e escuridão preconizaram:
– O império cairá de aflito!

Podemos pregá-las outra vez?